O paradoxo do amor

Quando falamos de amor, muitas vezes esse discurso envolve a fantasia da possibilidade de encontrar nossa cara-metade. E até mesmo o uso dessa expressão não é à toa. Pensamos assim a partir da sensação de que algo nos falta. E falta mesmo, mas não é o outro quem completará esse buraco.

Diante da sensação de que algo lhe falta, mesmo sem saber o que é, o amante espera que o amado isso, lhe dê. Esse, por sua vez, sente que tem algo a oferecer, mesmo que também não saiba bem o que.

Sim, a falta não tem forma nem cor, ela simplesmente é, e é por causa dela que nos tornamos seres desejantes e nos movimentamos em busca de sonhos e realizações. Que nunca se esgotam.

O paradoxo do amor é justamente o fato de que o que falta em um é aquilo que o outro não tem. Eis o impasse — a aspiração impossível — de dois não se faz um. Inventamos o mito do amor sustentado na promessa de felicidade.

A falta é o motor do desejo

Não é o outro que vai completar, porque não completa, não fecha. Não tem quem nem o que fará isso. A falta existe e é justamente por causa dela que podemos nos tornar sujeitos, e sair da posição de objeto. 

Mais do que negar, tentar tamponar ou preencher algum vazio, fazer alguma coisa com ele, e isso é da ordem da criação. E é de cada um, não tem receita. Fazer alguma coisa com isso é se movimentar na direção do seu desejo.

Movimentar-se para além da ilusão de completude é reconhecer o paradoxo do amor e tornar, assim, o encontro possível. Não é sobre o completar, mas o que fazer com isso que falta. A falta é o motor do desejo e o desejo é movimento e criação.

O encontro possível

Reconhecer a própria falta é também reconhecer a falta no outro. Dessa forma, enxergamos o parceiro como um ser também desejante, como nós. O que significa que não seremos tudo para o outro, nem o outro será tudo para nós.

Somente assim, um bom encontro é possível, pois não estará permeado pela ilusão da completude. Abandonar essa crença de conto de fadas e alma gêmea pode parecer assustador, pois desfaz construções antigas, presentes na nossa cultura.

No entanto, é libertador, pois somos sempre sozinhos, mesmo acompanhados. Isso tira o peso que se coloca nas relações amorosas ao esperar que o outro supra as nossas faltas ou imaginar que iremos suprir todas as faltas de alguém.

Para se viver o amor com liberdade é preciso antes reconhecer a nossa incompletude. É por ela que levantamos todos os dias e fazemos tudo o que fazemos. Se não houvesse a falta, não haveria movimento.

Quando nada mais falta, é porque não há mais vida. Só acaba, quando morre. Matar o amor é viver na fantasia de que ele nos completa. Viver o amor, é aceitar a realidade da incompletude que movimenta a vida.

Faz sentido pra você? Me conta nos comentários.

Publicado por Adriana Prosdocimi Psicanalista

Psicóloga e psicanalista. Atua especialmente com consultas online — uma forma de atendimento que rompe as barreiras da distância, facilitando o acesso ao psicólogo, inclusive para os brasileiros que vivem no exterior.

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