Como a infância molda relacionamentos

mae e filhos

“As primeiras experiências de uma criança se tornam modelos para todas as suas conexões posteriores, e (…) a mais remota percepção do self se forma nos menores diálogos com os pais ou responsáveis.” 

Van Der Kolk

As fantasias infantis têm força na nossa psique e as carregamos na vida adulta. Mesmo sem nos darmos conta, acabamos por repetir em nossos relacionamentos o mesmo roteiro. Reproduzimos a ideia que criamos sobre como devemos ser (ou não) para sermos amados.

Trago um fragmento de uma análise que ajuda a localizar como a vida adulta é impressionada pela infância. Fiz pequenas alterações na história para não expor o paciente, mas que não prejudicam a sua essência.

O papel das fantasias infantis nos relacionamentos

Um dia, em uma sessão, um paciente falou que tinha a sensação de que ele ‘não podia ficar bravo’. Tinha dificuldade de se expressar quando algo o chateava, pois achava que se o fizesse, desagradaria a outra pessoa. Então, engolia a raiva.

Em outro momento, lembrou que seus pais falavam sempre que ele era uma ‘criança amável’. Ele gostava disso, era um elogio, ficava satisfeito. Passou a sentir que não poderia demonstrar uma ‘emoção negativa’ (suas palavras), como raiva ou discordância. Caso o fizesse, deixaria de ser essa ‘criança amável’ e, portanto, de receber a atenção e amor dos pais. 

Passado um tempo de análise, já com essas questões em trabalho, mencionou uma conversa recente. Se sentiu incomodado com um comentário de certa pessoa que, segundo ele, teve um tom preconceituoso. Em situações semelhantes, anteriormente, ficaria em silêncio, optando por não expressar seus pensamentos, para não desagradar.

Dessa vez, reagiu diferente. — “Fiquei bravo!” — disse. Fez uma brincadeira (para não desagradar totalmente!), mas que dizia do seu descontentamento ou incomodo com aquele comentário. Essa mudança importa. Antes, ele engolia a raiva e não falava por medo de desagradar a outra pessoa.

Ele não ficou calado, mesmo recorrendo à ironia, expressou o seu ponto de vista (discordante), o que antes era impensável. Se sentiu bem por não ter se calado diante um comentário que para ele soara ofensivo.

Desatando nós e construindo laços

Todo esse processo foi um grande passo. O ajudou a desconstruir a necessidade de ser amável, que impedia a expressão de certas emoções. O que impactava como se sentia e se colocava em suas relações.

Vivenciamos os relacionamentos na vida adulta, impressionados pelas fantasias infantis.

Enrijecemos na repetição e criamos NÓS. Num processo de análise, os desfazemos. À medida que se dissolvem, cria-se espaço para novos tipos de LAÇOS. Esses, mais condizentes com quem você é hoje e menos atrelados às suas primeiras experiências amorosas.

É como trocar de pele, como os répteis fazem. Incômodo a princípio, mas um processo natural e necessário para poder crescer.

Faz sentido para você? Me conta nos comentários.


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Publicado por Adriana Prosdocimi Psicanalista

Psicóloga e psicanalista. Consultas online — uma forma de atendimento que rompe as barreiras da distância, facilitando o acesso ao psicólogo, inclusive para os brasileiros que vivem no exterior.

2 comentários em “Como a infância molda relacionamentos

  1. Adorei este fragmento. Ilustra com habilidade e clareza um dos possíveis efeitos do processo de análise. Obrigada, Adriana

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