Por que é preciso falar de abuso sexual na infância?

Falar sobre abuso sexual na infância alerta e educa as pessoas, além de oferecer a possibilidade de simbolização do trauma sofrido pelas vítimas.

Ao escrever esse texto fiquei me perguntando: por que falar sobre abuso sexual na infância? A resposta parece óbvia — alertar e educar as pessoas sobre o assunto — mas entendi que eu queria mais do que isso.

Embora seja um tema que cause desconforto, principalmente em tempos de felicidades estampadas em redes sociais — quase ninguém quer saber do que incomoda — precisamos falar sobre abuso porque ele existe, porque ele deixa marcas e ele cala.

A minha aposta, enquanto psicanalista, é na cura pela fala. Desejo, além de alertar e/ou educar as pessoas, encorajar as vozes que sofrem caladas a interromper esse doloroso silêncio.

Por que o silêncio sobre o abuso sexual na infância?

Françoise Dolto, uma das pioneiras em psicanálise da criança, em seu livro “A sexualidade feminina”, revela que um dos maiores dificultadores do tratamento de mulheres vítimas de abuso sexual na infância se dá, sobretudo, “quando é imposto à criança o silêncio pelo adulto abusador culpabilizado, tirando-lhe desta forma toda via de simbolização e possibilidade de elaboração.”

Silêncio imposto através de ameaças. Silêncio, por não encontrar refúgio e proteção no meio familiar para pedir ajuda. Silêncio que impossibilita qualquer elaboração. Silêncio que, com o tempo, se transforma em depressão, promiscuidade, isolamento afetivo, ansiedade, vícios, quadros psicossomáticos e psicopáticos.

Falar para quem se não se confia em ninguém?

Quando a criança tem uma relação com adultos abusivos, algo muito importante é quebrado — a confiança naqueles que deveriam protegê-la. As consequências dessa ruptura são sentidas na adolescência e na vida adulta — a possibilidade de se tornar uma pessoa desacreditada na confiabilidade e segurança das pessoas se refletirá nas suas relações futuras.

Um estudo publicado no Pan African Medical Journal, revelou que 70% dos abusos são praticados por conhecidos — pais, familiares, amigos, vizinhos — e 100% dos abusos são cometidos por homens. No entanto, devido ao silêncio imposto às vítimas, a maioria desses criminosos está solta, vivendo em liberdade e, seguramente, fazendo novas vítimas.

Para que serve o psicanalista em casos de abuso sexual na infância?

O trauma do abuso sexual na infância permanece no psiquismo da criança e se expressa em termos de violência, em suas mais diversas manifestações — depressão, atuação, promiscuidade, adições, psicopatia, entre outros sintomas graves, que expressam a ação da pulsão de morte.

Os efeitos do trauma são subjetivos e dependem da constituição do sujeito, da história de cada um, de como as pessoas em seu meio reagiram e, principalmente, da possibilidade de simbolizar a experiência traumática.

O papel do psicanalista entra aí — na oferta de uma possibilidade de representação e de simbolização, cuja ausência acarreta zonas psíquicas mortas, segundo Bokanowski em seu livro “Traumatisme, traumatique, trauma. Le conflit Freud / Ferenczi.”

Por que falar de abuso sexual na infância? Para alertar, prevenir e educar. Para falar para as vítimas do que ainda é possível: é possível procurar ajuda, é possível elaborar o trauma, é possível ser feliz, apesar de. E esse direito ninguém rouba.

Se você foi vítima de abuso sexual na infância, procure ajuda. Se preferir, entre em contato comigo.

Fale, não se cale.

Publicado por Adriana Prosdocimi Psicanalista

Psicóloga e psicanalista. Atua especialmente com consultas online — uma forma de atendimento que rompe as barreiras da distância, facilitando o acesso ao psicólogo, inclusive para os brasileiros que vivem no exterior.

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