Do enigma ao ato: a travessia dos tempos na análise

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Certa vez, um paciente que vou aqui chamar de Luca, quis ‘dar um tempo’ na análise. Segundo ele, ‘já tinha compreendido tudo’, mas achava que nunca iria mudar. Estava se sentindo ‘impotente’ diante do que vinha sendo revelado nas sessões.

Sentia que não conseguia ‘fazer diferente’, mesmo tendo ‘compreendido’ tanta coisa. Por mais que tivesse pistas dos passos que queria dar, não tinha garantia que daria certo, e isso o paralisava. ‘Prefiro esperar que essa angústia passe’, disse.

A ideia de impossibilidade de ação rumo a um novo caminho de mais satisfação, era uma velha conhecida de Luca. Isso ele ‘compreendia’, mas tinha a sensação de que era impossível agir. Compreender é importante, mas entender é limitado.

O instante de ver

O tempo em uma análise não segue uma linearidade cronológica, mas opera no registro do inconsciente. A transformação psíquica depende de como o sujeito se posiciona frente ao que o atravessa. E o tempo da subjetividade não é mensurável.

Há o momento onde um conteúdo sobre si é revelado, mas ainda não se percebe as suas implicações. Algo se impõe como enigma, ruptura ou espanto. No caso de Luca, esse momento é marcado em sua fala: “compreendi tudo…”

Algo se revelou, uma repetição, uma sensação de impotência. É como se ele tivesse visto sua posição subjetiva — mas ver não basta para deslocá-la. Não há mais a ilusão de ignorância. Ele viu, mas não consegue atravessar.

Tempo de compreender

Entre o ver e o compreender, há um intervalo, onde se elabora o que foi visto. Pode durar instantes, meses ou anos. É o tempo das associações, interpretações e construções. Há uma intensa tentativa de fazer sentido.

É o tempo da elaboração psíquica. Talvez Luca tenha se demorado na busca por compreender e isso o esgotou: “compreender demais traz angústia.” “Nunca vou mudar.” “Mesmo tendo compreendido… não consigo fazer diferente.”

O tempo de compreender é necessário, mas pode se tornar um impasse. Girar em torno do saber só faz evitar o ato. Uma defesa frente à angústia de escolher, de agir, de se responsabilizar.

O momento de concluir

Atravessar a angústia, implica uma decisão, uma escolha, um ato. Não se trata de mais entendimento, mas de assumir uma posição e agir, mesmo sem garantias. E é a falta de garantia que paralisa Luca: “não tenho garantia de que vai dar certo.”

O ato exige uma certeza antecipada — uma aposta, não no sentido irracional, mas como um salto ético. É preciso sair do circuito do saber para poder decidir. Luca experimenta o limite do tempo da compreensão sem implicação subjetiva, que o mantém numa paralisia.

Ele quer “esperar que passe”, ou seja, quer adiar o ato. No entanto, a sua saída da análise pode ser lida como um movimento importante. Uma recusa da paralisia, uma tentativa de criar outro lugar para si.

Luca encontrou a margem. O limite da compreensão. É tempo de atravessar.


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Publicado por Adriana Prosdocimi Psicanalista

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