Uma reflexão psicanalítica a partir da peça Céu da Língua, de Gregório Duvivier
Ontem fui assistir à peça Céu da Língua, do Gregório Duvivier — e uma cena me marcou, a ponto de me fazer sentar na cadeira hoje e escrever sobre.
Foi quando ele falava das hipóteses sobre o momento em que nossos ancestrais disseram a primeira palavra. E menciona uma delas, quase mítica — um primata vê um semelhante morto e percebe que também vai morrer. Diante desse abismo, começa a falar e cantar, como se o som pudesse preencher o silêncio insuportável da própria finitude.
Uma teoria poética e potente. E que toca num ponto sensível para a psicanálise: o vazio que tentamos preencher.
O encontro com a morte e o nascimento da linguagem
A consciência da morte é, talvez, um dos grandes marcos da humanidade. Não só porque sabemos que vamos morrer — mas porque sabemos disso antes que aconteça. Essa antecipação cria um espaço interno difícil de nomear. Um vazio.
Na psicologia existencial, Ernest Becker sugere que a cultura é uma tentativa de negar ou suavizar o terror da morte. Criamos histórias, crenças, projetos, filhos, obras, como formas de sobreviver simbolicamente àquilo que sabemos ser inevitável.
Heidegger nos lembra que a finitude não é um detalhe, é estrutura. Ou seja, a morte não é apenas um evento futuro, mas uma possibilidade constante que organiza a maneira como existimos.
Para a psicanálise, há algo no real impossível de ser simbolizado completamente. A morte é um desses pontos, onde a linguagem falha. Elaboramos e ritualizamos — mas algo sempre fica de fora. E talvez seja justamente por isso que falamos em excesso.
Os excessos como tentativa de preencher o vazio
Falamos demais.
Comemos demais.
Trabalhamos demais.
Fazemos festas demais.
Amamos demais — ou evitamos amar demais.
Intensidade ou tentativas de tamponar o vazio?
Na clínica, isso aparece de forma sutil. O sujeito que não suporta o silêncio. O que precisa estar sempre ocupado. O que transforma o trabalho em anestesia. O que come para não sentir. O que fala para não escutar.
O excesso, muitas vezes, é barulho contra o medo.
Mas há uma diferença delicada entre simbolizar e tamponar. Simbolizar é reconhecer a falta e, ainda assim, criar sentido. Tamponar é agir como se a falta não existisse.
Falar para não cair no abismo
A imagem do primata que canta ao perceber a própria morte é bonita porque não fala de negação pura. Fala de criação. Ele não destrói o vazio. Ele produz linguagem.
Na psicanálise, a fala não elimina a angústia, mas a contorna. A palavra dá borda ao indizível. Organiza algo do que é bruto, traumático, impossível de suportar sozinho.
Talvez a linguagem não tenha nascido apenas para organizar o mundo externo — caça, comida, perigo — mas também para organizar o mundo interno: o medo, a perda, a finitude.
Entre o silêncio da morte e o ruído dos excessos, existe um terceiro caminho. O da fala que sabe que há vazio. E que não tenta apagá-lo. Mas sustentá-lo.
Psicanálise, vazio e finitude: não é sobre eliminar, mas sustentar
Na análise, não buscamos preencher o vazio do sujeito. Não oferecemos respostas prontas nem promessas de completude. Trabalhamos para que ele possa reconhecer sua falta estrutural sem precisar se anestesiar.
Porque o vazio não é um erro. Ele é constitutivo.
Talvez o problema não seja a morte em si, mas o modo como tentamos fugir da angústia que ela evoca.
E talvez a saída não esteja no excesso — mas na palavra que se arrisca, mesmo sabendo que nunca será suficiente.
Talvez seja aí que a humanidade começou. E talvez seja aí que cada análise recomeça.
Descubra mais sobre Adriana Prosdocimi | Psicóloga e Psicanalista
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
