Este não é um texto sobre a leitura de microexpressões corporais, nem sobre interpretar gestos, posturas ou sintomas como se o corpo fosse um código a ser decifrado. É um texto sobre o corpo pensado como litoral.
A ideia de que “o corpo fala” costuma ser associada à revelação de algo escondido, uma verdade oculta que poderia ser traduzida. Na psicanálise, a proposta é outra: o corpo não fala porque explica, mas porque sinaliza o limite das palavras.
O corpo como litoral na psicanálise
O litoral não é uma fronteira rígida, como um muro ou uma linha bem definida. Ele é uma zona de contato, instável, de dois territórios que, ao se encontrarem, se transformam mutuamente. Pensar o corpo como litoral é situá-lo nesse ponto de encontro entre o que conseguimos dizer sobre nós e o que não conseguimos.
Há experiências que não cabem inteiras na linguagem. Afetos, sensações e intensidades que escapam às palavras, que não se organizam em narrativa, que não encontram forma simbólica suficiente. Ainda assim, existem, insistem. E quando a linguagem não dá conta, o corpo entra em cena — para marcar isso que transborda.
O corpo como litoral é esse lugar “onde o que determina o sujeito no campo da linguagem topa com o indizível que jorra gozo”. 1O corpo fala quando a linguagem falha, marcando esse ponto onde algo do vivido não pôde ser simbolizado.
Psicossomática: a relação entre mente e corpo
A intuição de que o que sentimos e pensamos atravessa o corpo é antiga e acompanha a experiência humana desde muito cedo.
No entanto, o termo psicossomática surge na literatura médica apenas em 1818, com o médico alemão Johann Heinroth. A palavra une psyche (alma, mente) e soma (corpo), expressando a ideia de que não são instâncias separadas, mas aspectos de uma mesma realidade.
A psicossomática se consolida como um campo de estudo na medicina ao investigar como o sofrimento emocional pode se manifestar como sintoma físico. Nesse contexto, as doenças psicossomáticas são compreendidas como expressões de conflitos psíquicos que não encontraram outra via de elaboração.
Psicanálise e psicossomática: quando o corpo não encontra palavras
É na psicanálise que a psicossomática se aprofunda, investigando a história do corpo e a maneira singular como cada sujeito se relaciona com ele. Não se trata de afirmar que toda doença tem uma “causa emocional”, mas de escutar como o corpo adoece e em que contexto subjetivo isso acontece.
A experiência clínica mostra que, nos fenômenos psicossomáticos, há um tipo de silêncio. Um evento corporal que não faz história: ‘uma memória sem narrativa, uma vontade sem desejo, uma imaginação sem fantasia’.2 Existem fatos traumáticos disponíveis à consciência, mas sem potência de experiência; há afetos, mas com pouca angústia que os organize.
Nesses casos, o corpo não conta uma história que possa ser facilmente narrada. Ele sustenta um litoral. Um lugar onde algo do sofrimento psíquico insiste em se manifestar, mesmo sem palavras.
O que a psicanálise pode oferecer ao paciente ‘dito’ psicossomático é um lugar de escuta que possibilita o uso da palavra — para permitir que a experiência corporal seja, pouco a pouco, simbolizada e colocada em diálogo com o desejo.
O corpo não traduz o indizível — ele o inscreve.
- Prefácio de Sônia Alberti, no livro: A pele como litoral — Christian Dunker; Heloísa Ramirez, Tatiana Assadi (Orgs.) ↩︎
- Christian Dunker no livro: A pele como litoral
Breve história da psicossomática: da pré-história à era romântica ↩︎
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