Nossas raízes são muitas

Assistindo a uma dança em uma festa de imigrantes no Sul do Brasil, penso em como as manifestações culturais dizem das peculiaridades de cada povo. Sua forma de ser e de expressar.

Ao mesmo tempo, me lembro da dança africana e todas as matizes dessa cultura tão presente na nossa Bahia. O congado de Minas Gerais, os índios e toda a diversidade do povo brasileiro. 

Nossas raízes são muitas. Africana, indígena, portuguesa, italiana, alemã, japonesa… E tantas outras…

Porém, antes de tudo, somos humanos. Isso que nos faz um só, ainda que cada um de nós seja dividido.

Assim como temos luz e sombra — é importante ver todos os lados — resgatar nossas origens é entender cada pedaço de nós.

Criamos limites e criamos fronteiras. Somos cisão.

E ser humano pressupõe a falha. Enquanto se nega um lado ele insiste em sair. Projetamos fora a divisão que temos dentro.

Penso que o olhar amoroso para o todo que somos pode se expandir para a compreensão das diferenças que encontramos.

Ao invés de dividir, somar. Reconhecer nossas origens é saber da riqueza que nos constitui. Brasileiros, sim, mas antes de tudo, humanos.

Afinal, o que faz um psicanalista?

Um psicanalista escuta ativamente e aposta na interpretação das ações do inconsciente. Ele está disposto a localizar no discurso o que se repete, insiste e não cessa. Isso que é o singular de cada um.

Muitas pessoas têm dificuldade de entender o que faz um psicanalista, pois preconceitos sempre rondaram a sua figura e o mergulho em si mesmo é uma aventura que nem todos desejam.

Ser psicanalista é estar consciente do desafio que é ser humano e apostar no que é possível apesar de. Tornar-se consciente de si mesmo é uma construção que leva à superação de dores, traumas, medos e outros transtornos.

Por que fazer análise?

Ao olhar para dentro de si, surge a possibilidade de ser autor da própria história. No entanto, assumir essa responsabilidade não é tarefa fácil e existe uma tendência a culpar o outro e o mundo pelas suas dores e incapacidades. 

A psicanálise é para quem quer cuidar da saúde mental e ter mais clareza sobre si para fazer melhores escolhas na vida. É como tomar as rédeas do próprio destino e seguir a cavalgada com confiança.

Sempre há um por quê e um conforto em nossas próprias neuroses e sintomas, até que chega um momento em que o sofrimento que causam se torna maior. Aí pode surgir o desejo de consultar um psicanalista.

A análise desfaz nós para tecer novas teias

Somos seres complexos e únicos: cada um tem a sua história e a própria maneira de absorvê-la. Criamos um jeito singular de ver e de atuar na vida à partir das nossas experiências e relações.

Para a psicanálise é possível encontrar melhores formas de ser e estar no mundo, que tenham mais consonância com o que se deseja. Basta ter coragem de olhar para trás, entender a própria história e dissolver medos e bloqueios que já não servem mais.

O psicanalista é quem o conduz nessa aventura de desbravar o inconsciente. A vida, em si, está em constante transformação, assim como nós. Somos uma eterna construção de nós mesmos.

O que você faz com o seu desejo?

O desejo surge à partir do desejo do outro — antes, alguém deseja por nós. É o que nos direciona e que nos dá os primeiros sinais para onde dirigir nosso olhar.

Aos poucos, nos damos conta que não podemos satisfazer o outro por completo e nos deparamos com a nossa própria falta. Partimos em uma busca incessante por preenchê-la e construimos quem somos.

Muitos seguem tentando ser o que o outro (a quem ama) quer que eles sejam. Outros, se voltam para si e buscam encontrar o que de fato os fazem pulsar.

O desejo pede um mergulho para dentro. O desejo é o que nos move. É aquilo que a gente tem de mais nosso e ele não pode ser sufocado pelo medo.

Qual o seu medo? Você tem medo de ser feliz? Você tem medo de realizar o seu sonho? Você tem medo de ser quem você é? Comece prestando atenção aos seus medos, eles o levarão ao seu desejo.

Então, o que faz um psicanalista? Escuta, interpreta as manifestações do inconsciente e aposta no desejo como a saida para lidar com a própria falta.

Use a sua voz para dizer o que se cala

Vivemos na era pós digital onde a imagem impera. Demonstrar alegria nas redes sociais é quase uma regra — falar de fraquezas e medos não fica bem em fotos nem gera curtidas.

O que não expressamos encontra alguma forma de se manifestar — na agressividade, no preconceito, em doenças psicossomáticas. Acumular dores gera os vários tipos de câncer que vemos brotar na nossa sociedade.

A tentativa de camuflar o que incomoda pode ser refletida no crescimento desenfreado da indústria farmacêutica. O Brasil ocupa a 8ª posição no ranking mundial desse mercado que fatura mais de R$ 63 bilhões por ano em território nacional.

Pela falta de informação, a psicologia ainda é mal vista por muitos, mas o caminho que ela propõe — o do autoconhecimento — é uma porta aberta para o nosso desenvolvimento enquanto seres humanos.

A proposta do “Em palavras” é buscar a expressão do que nos define, enquanto seres únicos nesse planetinha. Um canal para a fala — atendimento ‘online’ e presencial — e para a escrita — textos que tratam de temas humanos contemporâneos e atemporais.

Toda a mudança que queremos ver no mundo começa por nós mesmos.

Não cale a sua voz, escute as suas dores e escreva a sua própria história.

“Minha voz uso para dizer o que se cala” (Elza Soares)