O papel da religião na propagação da homofobia

Na tentativa de encontrar explicações sobre o sentido da vida ou uma sensação de pertencimento, muitas pessoas acham uma resposta na religião para as suas perguntas e um afago para suas dores existenciais.

Tanto que o conceito “sentimento oceânico” foi usado por Romain Rolland (escritor e músico francês) em uma carta a Freud para se referir a “uma sensação de ‘eternidade’, um sentimento de “ser um com o mundo externo”, que muitas pessoas encontram na espiritualidade.

A palavra religião deriva do verbo latino re ligare que significa religar — uma tentativa do homem de se re-ligar a algo, a Deus, ao Criador.

É tão desafiador ter coragem de ser quem se é, de seguir a própria cabeça e coração que, quando ‘alguém’ te diz o que é ‘certo’ e o que é ‘errado’, isso, de certa forma, traz algum alívio. Como a segurança que uma criança sente com um pai que lhe dá limites.

Para Freud, a suposta felicidade do crente resulta de um processo delirante de submissão. O homem religioso se mantém em uma posição infantil em troca de algum alívio para seu sofrimento.

O discurso homofóbico

A maioria das religiões oferece explicações prontas e acabadas sobre o bem o mal, que podem calar o indivíduo, na medida em que ele anula a sua própria percepção da realidade.

Às vezes, a fé inabalável nos dogmas religiosos causa prejuízos para a saúde mental, principalmente quando a pessoa acredita que o simples fato de ser quem é, é errado, segundo a visão da igreja.

Com muita frequência, a crença nesses dogmas causa depressão, ansiedade e outros tipos de sofrimento mental.

Certa vez, recebi em meu consultório uma paciente homossexual muito religiosa, em profundo sofrimento sem coragem de assumir a sua homossexualidade (condenada pela sua igreja) desperdiçando a chance se ser feliz por medo, por se sentir mau e errada, como a sua religião pregava.

A homofobia mata

As religiões que condenam a homossexualidade, causam danos psicológicos em seus ‘fiéis’ homossexuais e propagam a homofobia. A homofobia, além de calar o sujeito que se sente oprimido e inadequado, mata.

Infelizmente vemos com frequência crimes cometidos contra homossexuais. Isso tem que acabar. Precisamos falar sobre os discursos religiosos que propagam a homofobia.

discriminação por orientação sexual e de gênero é considerada crime no Brasil, punido pela Lei de Racismo (7716/89), que prevê delitos de discriminação ou preconceito por raça, cor, etnia, religião e procedência nacional.

Escuta e acolhimento

Essa minha paciente, um dia, me disse: “a igreja deveria ser um lugar de acolhimento, de carinho. Deveria acolher as diferenças e ajudar, de verdade, cada um em seu sofrimento. No entanto, o que vejo são pessoas que vestem uma máscara, que fingem serem iguais e ignoram suas diferenças, que as tornam únicas. Fora da igreja, cada um tem seu próprio submundo.”

Ela buscava ajuda em sua igreja para lidar com os conflitos que surgiam em relação à sua orientação sexual, mas em vez de escuta e acolhimento, o que encontrava era julgamento e condenação.

Ainda bem que ela buscou ajuda (terapia) para falar sobre seu sofrimento e encontrou um espaço que lhe fornecia a escuta e o acolhimento que precisava. Mesmo assim, não foi fácil para ela conseguir se aceitar, pois precisou questionar alguns dogmas religiosos que estavam lhe oprimindo e a impedindo de assumir a homossexualidade.

O que ela estava vivenciando em sua igreja a estava matando por dentro. A homofobia não só cala o sujeito e a sua livre expressão, mas também propaga discursos de ódio que levam a homicídios e diversos outras violências contra os homossexuais.

A homofobia mata.

Viva a sua verdade, pois ela é o que te torna única. Se passou ou está passando por situações de preconceito ligados a homofobia, busque ajuda de um profissional da saúde mental. Se quiser conversar comigo, entre em contato e agende sua consulta.

Publicado por Adriana Prosdocimi Psicanalista

Psicóloga e psicanalista. Atua especialmente com consultas online — uma forma de atendimento que rompe as barreiras da distância, facilitando o acesso ao psicólogo, inclusive para os brasileiros que vivem no exterior.

2 comentários em “O papel da religião na propagação da homofobia

  1. Adriana é sempre bom ler um material esclarecedor e elucidativo, como o seu.
    Não tanto quanto ao que a homofobia pode fazer em nossas vidas mas, pelo seu posicionamento enquanto Analista. E, não nos assustemos, não é pouco o numero de pessoas de religiões diversas (principalmente judaico – cristãs) que estão estudando psicanálise.
    Os católicos adoram e os evangélicos estão no caminho. E, agora, algumas pessoas começaram a desenvolver algo preocupante; a denominação “psicanalistas cristãos”.
    Longe de qualquer conselho federal que regula as práticas clinicas, a psicanálise é uma porta aberta para qualquer um que queira fazer terapia de reconversão (totalmente descabida para a psicanálise) o que pode contribuir ainda mais para o suicídio ou problemas psicológicos, etc.

    Abraço!

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  2. Obrigada Roberto, feliz em saber que posso contribuir a partir desse olhar enquanto analista para debates tão cruciais para a saúde mental da nossa sociedade. Obrigada pelas sua contribuição levantando esse ponto delicado da junção da psicanálise com religião, pois isso em si já é uma quebra fundamental da ética da nossa prática e teoria. Abraços!

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